Agricultura de Precisão

Carl Sagan

Agricultura de precisão começa na colheita. Através de uma colheitadeira equipada com GPS, pode-se dividir a região de cultivo em sub-regiões classificadas por produtividade. Após demarcar estas áreas, é necessário fazer um diagnóstico para determinar as causas da baixa produtividade de algumas sub-regiões. Tal diagnóstico pode ser realizado, simplesmente, analisando os aspectos visíveis (encharcamento, compactação, acamamento, doenças de solos, nematóides, pragas, etc). No entanto, em alguns casos, uma análise mais detalhada do solo é indicada para verificar-se os níveis de nutrientes, a matéria orgânica, pH, etc. O objetivo é corrigir as referidas sub-regiões, tornando a produtividade de todas as regiões de cultivo uniforme e máxima.

No Brasil, a agricultura de precisão realizada como supracitado já é discutida há mais de dez anos. No entanto, apenas recentemente está sendo utilizada de fato. Infelizmente, atualmente, a agricultura de precisão é aplicada apenas em grandes propriedades. A justificativa para isso é apenas falta de conhecimento do homem do campo, pois a agricultura de precisão é mais indicada justamente em pequenas regiões, onde, devido à pequena quantidade de terra disponível, o pequeno agricultor deveria ser aquele com maior interesse em aumentar a sua produtividade.

Apesar da agricultura de precisão já ser utilizada no Brasil para diagnosticar e corrigir problemas no solo. O mesmo não acontece no controle de pragas. Normalmente, o agricultor realiza um controle preventivo de fitopatógenos. Tal controle consiste na aplicação de fungicidas e agrotóxicos em períodos pré-determinados, como uma tentativa de evitar ou, pelo menos, minimizar o surgimento de pragas. Apesar de essa ser a metodologia mais utilizada por grandes e pequenos produtores, ela está longe de ser a ideal. Isto porque, neste caso, o agricultor pode estar fazendo aplicações quando não há risco de infecção da planta ou, pior ainda, ser obrigado a fazer mais aplicações do que o previsto, pois toda aplicação de defensivos agrícolas tem uma validade. Assim, aplicações mal planejadas não garantem 100% o não surgimento de doenças. Além disso, cada aplicação desnecessária de fungicidas e agrotóxicos torna os alimentos mais caros e menos saudáveis para o consumidor final.

Uma abordagem diferente pode ser utilizada levando em consideração que, para que uma patologia vegetal consiga instalar-se em uma lavoura, é necessária a existência de fitopatógenos e de condições climáticas favoráveis. Sem um desses dois fatores, não há necessidade de controle químico. Assim, qualquer aplicação realizada na ausência de um desses fatores, contribui apenas para a redução dos lucros e para a produção de alimentos menos saudáveis. Sendo assim, para planejar o controle químico, todo agricultor deveria estar atento, inicialmente, ao surgimento de fitopatógenos em sua lavoura. Esses microrganismos penetram nas plantas, causando o surgimento das doenças. No entanto, a simples presença desses microrganismos não constitui um risco imediato, pois, em muitos casos, o fitopatógeno chega às plantações já sem vida e sem riscos para a lavoura . Além disso, mesmo com a presença de fitopatógenos potencialmente perigosos, o agricultor deve ainda observar as condições agrometeorologias antes de optar pelo controle químico. Isto porque estes microrganismos são pouco resistentes e são eliminados naturalmente em condições agrometeorologicas normais. Este cuidado, ou seja, a procura constante de agentes causadores de doenças e o monitoramento das condições agrometeorologicas favoráveis ao surgimento de doenças, pode, com segurança, reduzir drasticamente a necessidade de aplicações de fungicidas para controle, por exemplo, do phakopsora pachyrhizi, causador da ferrugem da soja, e do puccinia kuehnii, causador da ferrugem alaranjada da cana-de-açúcar.

Assim como no caso da homogeneização da produtividade através do tratamento do solo, na agricultura de precisão aplicada à fitopatologia, a região de cultivo deve ser dividida em sub-regiões classificadas por condições agrometeorologicas semelhantes. Uma vez identificadas tais sub-regiões, o monitoramento das condições agrometeorologicas deve ser feito de forma individual, em cada uma delas. Isto permite, além de reduzir o número de aplicações de fungicidas e outras substâncias utilizadas no controle químico, também permite reduzir o número de sub-regiões a receberem tais aplicações. Isto porque, como cada sub-região tem características bem distintas, provavelmente, em algumas delas, não deve haver condições necessárias ao surgimento de doenças, dispensado o controle químico em toda a região, como normalmente é feito pelos agricultores.

O principal motivo que impede o controle preditivo de doenças em plantas, como supracitado, é o custo elevado dos equipamentos de monitoramento das condições agrometeorologicas. Isto porque cada sub-região de cultivo necessita de um sistema de monitoramento individual. Além disso, tal monitoramento deve ocorrer de hora em hora, implicando na necessita de uma aquisição automática dos dados, onde as informações coletadas em toda a região de cultivo sejam concentradas facilmente em um único local. A aplicação desses dados a modelos pré-existentes de fitopatogeneses, permitiriam ao agricultor um controle químico inteligente, maximização dos lucros e, melhor ainda, a produção de alimentos mais saudáveis. Esses modelos associam as condições agrometeorológicas aos fitopatógenos, fornecendo o grau de favorabilidade ao aparecimento das doenças em plantas. Apesar disto, a falta de informação, o alto custo das estações agrometeorológicas automáticas, bem como o elevado número de pontos de monitoramento necessários, fazem com que, no Brasil, a agricultura de precisão seja muito pouco aplicada a fitopatologia. Em vista disto, o LA2I está desenvolvimento diversos equipamentos para um sistema de alerta que possa auxiliar o agricultor na realização de um controle químico inteligente nas regiões de cultivo. Tal sistema será baseado principalmente em um equipamento de monitoramento de grandezas agrometeorológicas, chamado de “árvore eletrônica”, que deve ser instalado em uma sub-região de cultivo. Os dados adquiridos pela árvore eletrônica devem ser transferidos de hora em hora, via transmissão sem fio, para um computador central. Neste computador, os dados serão aplicados aos modelos de doenças, fornecendo um alerta de quando o agricultor deverá realizar o controle químico e, além disso, informando em que sub-regiões tal controle deve ocorrer. Na prática, o sistema não deverá ser vendido ao agricultor. Ao invés disso, este deverá ser fornecido gratuitamente ou em comodato, pois, além do equipamento, serviços especializados para identificação dos esporos causadores das doenças, coleta e análise dos dados ainda serão necessários.

Carl SaganUm dos protótipos da “Árvore Eletrônica” que está sendo desenvolvida pelo LA2I. O equipamento registra a duração do período de molhamento foliar em diversas alturas, além da temperatura e umidade relativa do ar, sua alimentação é através de placa solar e a transmissão de dados ocorre via internet.